06 Outubro, 2009

Pena

Aquela fila interminável de escapamentos, e já estávamos sem paciência, dentro do carro que vencera centímetros nos últimos minutos. No alto da ladeira, uma caminhonete estava encalhada, quase náufraga – os pneus afundavam sob o peso de quilos de banana, tangerina, maçã e morangos.
“No meio da pista, que filhoda...” mas aí, no meio da ofensa, parei – como ele parara, no meio da subida incompleta.
Um bigode honesto, quase arrependido, saiu do carro – filho de uma, como a minha. Tentou subir as ladeiras do Morumbi com a caçamba cheia de frutas, mas os deuses não deixariam que ele galgasse esse Olimpo.
Só pensamos em descer do carro para ajudar a empurrar quando viramos a curva e vencemos o trânsito. Só pensamos.
Em minutos veio a chuva, molhou as frutas, levou embora a encomenda mas não lavou a pena.

Diálogo

I: Opa. Vamos comer?
K: Já peguei o endereço do Zé do Hamburguer. Fica na Caiubi.
I: Ah, perto da casa do Cavechini!
K: Você sabe onde fica?
I: ... não...
K: ...?

08 Setembro, 2009

O que fazer?

A aposentadoria veio com lágrimas (dos que ficam) e uma placa na parede (do que vai): o que vão fazer sem mim?
Contratam uma menina mais nova, que fez um curso com um nome cheio de estrangeirismos.
Executiva recém-contratada revoluciona contratos corporativos em fusão com chineses, eu li na gazeta do mês seguinte. Eu paro de assinar o diário, mas as notícias não param de chegar nem de acontecer.
Ela recebeu um convite da diretoria, ouvi. E está procurando um substituto. Cogito mandar meu currículo, mas ele precisa ser digitado, e minha máquina de datilografar está sem a letra J.
O que vou fazer comigo?

21 Julho, 2009

Rejeição

"As razões de minha recusa são múltiplas, mas não se preocupe, agirei com clemência. Em primeiro lugar, devo dizer que vosso manuscrito oscila, do princípio ao fim, entre o banal e o desinteressante. O que deveria ser literatura se transforma, na verdade, em poderoso sonífero. Devo reconhecer que emana de vossa prosa uma tênue musicalidade, mas, infelizmente, essa ladainha é antiquada, e o refrão é tedioso. Não pretendo arrasá-lo, porém devo dizer que raramente li um texto tão coalhado de defeitos. Que fazer? Apesar de todo o empenho, o senhor não tem talento.
(...) O senhor é livre para efetuar novas tentativas, ou para ter o bom senso de se curvar ante meu veredicto."
(“Vaticinador”. In: A arte de recusar um original, de Camilien Roy, p. 43)

14 Julho, 2009

Conto de fadas

De tanto ser arrastado pelo braço, o ursinho de pelúcia acabou descosturando; rasgou e foi esquecido no fundo do armário (de que serviria um urso que só pode dar meio abraço?). Lá encontrou uma bailarina de porcelana que perdeu uma mão quando caiu da prateleira.
Ele tinha sido usado demais; ela não tinha recebido a atenção que sua delicadeza exigia.
O encaixe era perfeito: com o apoio do outro membro da bailarina, o ursinho podia voltar a abraçar; pela primeira vez na vida a bailarina ganhava um par para a dança.
Mas esse Frankenstein de pelúcia e porcelana era escorregadio, instável. O urso não achava buracos na superfície de porcelana da bailarina para poder se costurar junto a ela. A bailarina tentou derreter o tecido do urso para amalgamar-se, mas o queimou.
Eles andam juntos, trôpegos – o sorriso costurado do urso nega, mas seus olhos de botões ainda tateiam em busca de um tecido macio para se amarrar com um fio de matrimônio.

13 Julho, 2009

Turn yourself back to me

A sala silencia sem o compasso dos seus saltos altos pelo corredor; as paredes ainda ecoam as sombras dos seus últimos passos. Espero no escuro, desde que você desligou o interruptor, segundos antes de fechar a porta.
Náufrago, me afogo no lago nítido de um espelho que evidencia a falta que você faz para a minha barba. Uma fina camada de poeira denuncia os cinco longos dias em que as pontas dos meus sapatos não morderam os bicos dos seus. A louça eu lavei, sozinho, no dobro do tempo – sei que você não vai querer uma pilha para te receber quando voltar. Porque você vai voltar amanhã.
De manhã, vou comprar creme e lâminas novas. Não são para mim; eu já sou todo para você.

03 Julho, 2009

Prêmio

O bilhete mostrava quatro das dezenas, mas faltavam duas. Deu míseros 82 reais e alguns centavos, divididos entre centenas de outros azarados que erraram na hora de completar a cartela. A viagem pro sul vai ter que esperar, assim como a TV nova e aquela dívida antiga com seu irmão.
Na outra ponta do balcão, ela encarava o vazio de dentro da sua taça. Ele decidiu pagar o refil – ela parecia precisar de outra dose tanto quanto ele. O nome do drink que ela tomava era quase tão incompreensível quanto o nome dela.
A conta dos dois deu 82 reais e os mesmos centavos, que ele pagou sem perceber a ironia. Deixou o dinheiro contado no balcão, sem conseguir mais tirar os olhos daquele sorriso.

12 Junho, 2009

Toda a beleza triste

Por que os beijos tristes precisam ser os mais bonitos? Eles comprimem entre os lábios todos os outros beijos igualmente impossíveis, igualmente doces e irreais que foram evitados antes e talvez não aconteçam nunca mais. Suspiram entre satisfação finalmente alcançada e decepção antecipada. Envolvidos num abraço interminável, exigem mais enquanto despedem-se novamente.
Ou... pode ser que toda a beleza floresça desse “talvez”.

Para todos vocês que não conseguem agüentar essa beleza por ser triste demais (humana demais, talvez), há o consolo de que vocês podem ser felizes. É mais fácil. Para todos vocês, feliz dia dos namorados.